Se a fadiga crónica é a sua companheira

Cada dia é um mau dia e sente que nada do que faz tem valor, o problema é sério. Estarás em burnout?  A síndrome foi descrita pelo psicanalista americano Herbert Freudenberger, nos anos setenta, a partir da sua experiência pessoal: ele media o seu valor em função do sucesso e dedicava-se exageradamente ao trabalho, movido pelo desejo de ser o melhor. Até que, um dia, queimou. Ficou frito, diríamos nós, em bom português. Ou, numa gíria mais tecnológica, crashou.

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Ter um esgotamento – que envolve exaustão física e emocional, alienação e sentimentos de incapacidade – é pisar o risco do esforço, sem pausas, até partir a corda. Ocorrer mais a uns do que a outros não resulta apenas das diferenças de personalidade (como alguns pensam, erradamente), mas da acumulação do stresse laboral, que está na origem de várias perturbações psicológicas. Não por acaso, em 2010 elas foram incluídas na lista de doenças profissionais da Organização Internacional do Trabalho.

A crise financeira e a intensificação dos ritmos de trabalho

Trouxeram novos riscos, que comprometem o bem-estar e a produtividade. Culpado por mais de metade dos dias perdidos por faltas, o stress laboral afeta um quarto da população ativa e será, dentro de cinco anos, a segunda principal causa de doenças profissionais, segundo o Observatório Europeu dos Riscos, da Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (EU-OSHA). O último inquérito às empresas, realizado em 2010, revelava que 30% tinha procedimentos específicos para lidar com situações de stress, violência e assédio, mas, no caso português, a percentagem não ia além dos 13 por cento. O relatório da OCDE, Fit Mind, Fit Job, divulgado no passado dia 4, revelou que entre 15% a 20% da população ativa desenvolve perturbações psicológicas no exercício da função.

Portugal, ocupa o sétimo pior lugar (entre 33 países), com o stress associado a exigências elevadas e baixos recursos. Se a isso acrescentarmos fracas possibilidades de promoção, reduções salariais, vínculos precários e mudanças dos fluxos laborais, a questão que se coloca é: estamos preparados para lidar com o aumento de casos de burnout?

À espera que passe

Sinto-me uma fotocópia / prefiro o original (…) Faz-me impressão o trabalho / a inércia faz-me mal. Quando, nos anos oitenta, Rui Reininho compôs Impressões Digitais, estávamos longe de adivinhar a crise sócio-económica, que trouxe um desconforto crescente. Mas, noutras coisas, pouco mudou. “As empresas portuguesas ainda encaram as perturbações de saúde mental como um problema desligado do clima organizacional”, comenta Mark Pearson, que tem a seu cargo a pasta do emprego, trabalho e assuntos sociais da OCDE.

O economista destaca o calcanhar de Aquiles dos portugueses, que ocupam o terceiro lugar na UE no consumo de psicofármacos. Além disso, um em cada cinco portugueses tem problemas psiquiátricos (em lugar de destaque, surge a ansiedade e a depressão). Porém, acrescenta Mark Pearson, “o burnout” é considerado um problema físico que se resolve com medicação”, sem serem assegurados serviços de apoio nos locais de trabalho.

Nas condições atuais, a “síndrome do queimado”, como é descrita em Espanha, pode acontecer a qualquer um. “Temos uma percentagem elevada de pacientes com esgotamento profissional, que ainda é uma realidade pouco conhecida “, adianta Hernâni Neto, coordenador da Rede de Investigação sobre Condições de Trabalho, no Porto, organização que acaba de lançar um livro sobre o tema. O sociólogo recomenda às empresas que “definam os regimes de avaliação de desempenho claros e realistas e promovam a formação em gestão do tempo e dos conflitos”.

O inimigo entre nós

Entre as profissões de maior risco, foram já realizados alguns estudos parcelares. Uma amostra de 166 bancários (Faculdade de Economia do Porto, 2013) apresentou níveis moderados de burnout, associados às exigências dos clientes e ao ambiente de incerteza. A síndrome também foi identificada em 75% dos técnicos de ambulância do INEM e, entre 263 anestesistas inquiridos pela Ordem dos Médicos, a maioria sofria de exaustão emocional e 90% apresentava sintomas de despersonalização.

De resto, é nos profissionais de saúde que a doença mais se tem feito notar, agravada pelos episódios de violência contra eles, que aumentaram 162% face ao ano anterior (Observatório da Direção-Geral de Saúde). Já este ano, um estudo europeu com 2 235 enfermeiros de unidades hospitalares (N4Cast) permitiu apurar que dois em cada três apresentava sintomas de esgotamento e, apesar de um terço trabalhar além do turno, 25% dos cuidados ficavam por realizar. Outro estudo coordenado pela Universidade Católica revelou que três em cada 10 médicos e enfermeiros sofre de exaustão, contribuindo para aumentar o risco de erro no desempenho da função.

“Não precisamos de estudos com fita métrica, tendo eventos sentinela que revelam o problema”, alerta Maria Antónia Frasquilho, psiquiatra especializada em stresse ocupacional e formadora em riscos psicossociais. São as baixas, o absentismo, os conflitos no emprego, o estar de corpo presente e com fraco desempenho. “Há pessoas a saírem de postos de trabalho que ainda têm alguma segurança, porque são tratadas como recursos descartáveis, é-lhes retirado o espírito de corpo e a identidade profissional.” A médica admite que “o medo define o mundo do trabalho atual, assente em crenças sociais que distorcem o que é ser um trabalhador com rosto humano”.

Em 2008, chegou a haver um grupo da Ordem dos Médicos para estudar o burnout e implementar medidas, que viria a ser suspenso, por não ser considerado prioritário. Foi reaprovado este ano. Entretanto, o cenário agravou-se, garante Maria Antónia Frasquilho: “Uns vão para o estrangeiro, outros agridem doentes, outros suicidam-se.”

Equívocos comuns

Professores, médicos, comerciais, profissionais de segurança e outros em que a componente relacional é expressiva, estão na linha da frente desta nova realidade, mas a dinâmica sociolaboral pode ter mais peso que a profissão em si. “A crise parece ter contribuído para o grau de pressão em responder a exigências – tecnológicas, de prazos, de resultados -, por receio de perder o emprego e não conseguir dizer que não, acumulando solicitações”, assegura Cristina Queirós, docente da Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto e investigadora em reabilitação psicossocial. “A pessoa vai aguentando, mas basta haver uma solicitação mais forte e vai-se abaixo, porque precisa adaptar-se e já não consegue”, explica. Neste campo, há diferenças de género – “elas têm pontuações mais elevadas na exaustão emocional, dizem ‘não consigo dar mais’; eles são mais propensos à frieza emocional, que se pode transformar em explosões de cólera” – e de idade, já que o burnout é mais comum a meio da carreira.

O que separa a “erosão da alma” – expressão usada por alguns autores – da depressão, com que por vezes é confundida a síndrome, parece residir na fisiologia do cortisol, hormona do stresse segregada nas glândulas suprarrenais. Em situações exigentes, a sua produção aumenta e, ao longo do tempo, traduz-se em fadiga e depressão. No esgotamento, o cortisol diminui e provoca sentimentos de solidão, danos na vida pessoal e, por fim, no rendimento profissional.

Mudar de paradigma

Ana Loya, diretora da Ray Human Capital, admite que o burnout é um termo mais trendy para designar uma realidade que não é nova: “Sempre houve pessoas que esticaram demais a corda e não pararam a tempo.” Psicóloga organizacional há mais de 30 anos, Ana Loya fala de uma crise civilizacional tão grande como na época da Revolução Industrial e refere o que isso tem de preocupante: direitos como as reformas, carreira ou férias deixaram de estar garantidos e entra-se no jogo da sobrevivência. No medo de perder o emprego ou de fechar a empresa. Neste contexto, “quem se fragiliza emocionalmente não é socialmente desejável, e esconde-se”.

O economista Eugénio Rosa acredita que é urgente refletir sobre “os deuses que dominam as sociedades atuais – a competitividade, o individualismo, o desejo de vencer e ser o melhor – e que as empresas premeiam, sem estimular a cooperação”. A psicanalista e psicóloga do trabalho Tânia Pinto faz uma distinção entre o stresse, “ligado à urgência e ao too much” e o esgotamento, que “é da ordem do never enough, ou seja, nunca se é suficiente para fazer o que é pedido ou que o próprio se impõe”. E chama a atenção para o discurso paradoxal da organização do trabalho: o “se está tudo nas tuas mãos e não aguentares é porque és fraco” coloca as pessoas num beco sem saída. “Não há absentismo mas presentismo, está-se lá mas não se investe.” Sobretudo ao nível dos quadros, que se defendem do sofrimento ético com a atitude “não vi, não ouvi”.

A cultura do silêncio potencia situações limite, como as vagas de suicídios ocorridas há anos, no processo de reestruturação da France Telecom. Aí, prossegue Tânia Pinto, “o desmembramento de equipas e o subdimensionar do problema voltou-se contra os que os promoveram”. A grande lição a tirar: “A organização do trabalho precisa de ter mais plasticidade e de ver nas pessoas um meio para alcançar metas: com elas, e não apesar delas.”

Boas práticas

O levantamento de riscos psicossociais é recomendado há vários anos pela UE, mas só há pouco mais de dois é que uma diretiva levou as empresas a fazê-lo. A Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) solicita a avaliação ao empregador e este procederá a mudanças concretas. “No caso das pequenas e médias empresas, o mais difícil é reunir a capacidade técnica para identificar riscos e agir”, refere Manuel Roxo, subinspetor na direção da ACT. “É mais simples para uma empresa culpar as pessoas quando dão mostras de não aguentar, mas o facto é que existem questões de contexto transversais a todos os setores”, afirma Maria José Chambel, doutorada em psicologia social das organizações e docente na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. A instituição vem estabelecendo parcerias com empresas: “São ainda poucas, mas as que chegam até nós estão interessadas em conhecer a sua realidade e em melhorá-la.” É o caso do INEM, mas também da Associação dos Contact Centers, que implementou algumas mudanças, no ano passado, após um levantamento com duas mil pessoas. A 31 de março, a Ordem dos Psicólogos vai lançar a iniciativa Locais de Trabalho Saudáveis, para distinguir organizações com contributos inovadores.

Em síntese, alguma coisa mudou nos últimos anos. “Hoje temos mais do mau e mais do bom”, resume Mário Ceitil, vice-presidente da Associação Portuguesa de Gestão de Pessoas. Há mais exposição ao risco e imprevisibilidade, a par da maior consciência dos gestores em criar “um ambiente antropogénico que estimule o sentido de propósito, a mestria e os estados subjetivos positivos das pessoas”. Voltando à questão inicial, importa recordar a máxima de Steve Jobs, o magnata visionário da Apple, que todos os candidatos a um emprego, empregadores e empreendedores devem ter presente: “Se estás a trabalhar em algo excitante e do qual gostas mesmo muito, não precisas de ser pressionado para alcançar resultados.”

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Tem um dia inspirador!

Equipa Mário Caetano