O Gene da Fé: estarão os seres humanos programados para acreditarem num poder mais elevado?

 Untitled design (28)
 
Alguns cientistas afirmam que sim baseado naquilo que designam como “gene da fé” ou em certas áreas do cérebro que acendem no MRI quando as pessoas rezam ou pensam em Deus. Este é um sim bastante destrutivo porque reduz a religião a um sistema mecânico, como o batimento cardíaco ou as alterações hormonais. A mesma evidência alimenta o argumento dos ateus que afirma que já que Deus é apenas uma reacção química então está na hora de deixarmos de acreditar numa divindade? Pelo menos, dizem eles, deixemos de glorificar Deus, agora que ele (ou ela) deixou de ter a elevada importância que lhe era dada tanto na bíblia como nas escrituras.
Penso que os ateus estão a retirar bastantes dividendos de um fraco argumento. Em 1896, muito antes das imagens cerebrais e da descoberta do DNA, o famoso filósofo e psicólogo de Harvard, William James, publicou um ensaio chamado “The Will to Believe”. Defendia uma postura que era uma novidade. James descobriu uma forma da ciência conduzir a Deus em vez de derrotar Deus. Deixem-me explicar, James pensava que as pessoas tinham o direito, talvez até um disco, para dizer que Deus existia, e mesmo sabendo que não podiam mostrar evidências pelas suas crenças religiosas isso era suportado pelo conforto, esperança e fé.
Os ateus ridicularizaram este argumento afirmando que era infantil contarmos histórias de fadas sobre Deus apenas porque nos fazem sentir bem. Defendiam que era muito melhor crescer e ver o que está, na realidade, perante os nossos olhos: um mundo de matéria ao acaso sem o menor sinal de uma inteligência superior, autoridade moral, vida depois da morte ou outra qualquer idiotice da religião.
No entanto James estava muito à frente deste argumento. Quando lhe perguntavam se acreditar mesmo em Deus fazia com que as evidencias aparecessem, esta era a revelação. Porque enquanto acreditamos em fantasmas e cinderelas, eles não aparecem (pelo menos até agora), Deus é um aspecto da nossa consciência. A divindade é um prolongamento  da mente humana. Quando Jesus diz “ Procurem o reino de Deus no teu interior” ele estava a apontar para esse prolongamento. Estou a parafrasear James e a ir além do seu ensaio mas o que me fascina é ele falar de uma afirmação que utilizamos bastante hoje” verás aquilo em que acreditares”.
Para um descrente isto soa a auto-hipnose. Sendo homens da matéria eles defendem a velha afirmação “ Eu acredito quando vir”. Contudo nunca ninguém afirmou que Deus, ou outra qualquer inteligência superior ou mesmo o que quer que tenha criado o universo era visível  como uma rocha ou uma árvore. A própria gravidade não é tangível mas logo que a humanidade decidiu procurá-la, ela tornou-se evidente. Deus é mais subtil que a gravidade no entanto é tão evidente se soubermos o que procuramos.
James não era um crente  fervoroso na religião fundamentalista que usava interpretações literais das escrituras para esconder inseguranças e experiências limitadas do divino. Esta é uma fé pragmática de uma hipótese aplicada para melhorar a vida de todos.
No entanto, não acredito que estejamos em tempo de deixarmos de acreditar. Muito pelo contrário. Acreditar é estarmos um passo à frente da esperança. Esperança pode ser desesperante, vazia e falsa. Mas quando passamos da esperança para o acreditar fazemos algo real e positivo. Por outras palavras, abrimo-nos ao conhecimento que é o que todos pretendemos. Acreditar é meio caminho para estarmos em casa. Abre-nos a nossa atenção para novas possibilidades e assim descobrimos a forma como Deus pode ser de facto conhecido. Por um lado temos inúmeros santos e sábios que nos afirmam que podemos encontrar Deus e inúmeros ateus que nos dizem que não o podemos fazer.

A verdadeira questão não depende da religião ou da ciência mas apenas no que James defendia quando afirmava que a mente permitia à natureza revelar-se de uma forma mais profunda do que podemos imaginar. Eu identifico-me bastante com esta posição e acredito que vale a pena partilhá-la. Podemos, todos, beneficiar com o pragmatismo de James quando afirma que Deus devia ser adoptado com uma hipótese de trabalho, mesmo quando a dúvida existe. À medida que as evidências surgem para apoiar as nossas crenças seremos muito mais bem-sucedidos nas nossas vidas.

Fonte: Deepak Chopra, autor do Gene da Fé

 
Equipa Mário Caetano