Quando saía de casa pela manhã, dava-lhes um beijo. Até logo, dizia-lhes. Divirtam-se, finalizava. E pronto. Elas iam para a escola e eu ia trabalhar. À noite encontrávamo-nos. Ou não, pensei eu um dia. E se não as visse mais? E se esta fosse a última vez que estávamos juntos? E se um até logo se transformasse num até sempre? E se nunca mais visse as minhas filhas?

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Estas perguntas mexeram comigo. Mexeram comigo profundamente ao ponto de deixar de dar o reencontro como um dado adquirido. Isto leva-nos a colocar de lado o mais importante. Sim, o mais importante na vida é o momento que jamais se repetirá, o momento presente, portanto, dá-lo como adquirido afrouxa-nos a alma.

Não acontece apenas com a família. Acontece com tudo.

Acontece-nos no emprego, quando o damos como adquirido e colocamos do lado de lá a responsabilidade de alguém nos motivar. A princípio era bom, depois tornou-se enfadonho, para de seguida ser angustiante. Instalam-se hábitos e o que nos servia já não nos serve. Baixamos níveis de exigência e criticamos aquilo que anteriormente elogiávamos, encontrando culpados para a angústia vazia de um trabalho sem sentido.

Acontece-nos com clientes, quando damos como adquirido o seu dinheiro e a certeza ilusória de que vão continuar ali para sempre, esquecendo-nos do nosso real propósito e missão. Acontece-nos com fornecedores quando nos sentimos tratados como números e se esquecem de nós a partir do momento em que o contrato é fechado, perdendo-se a importância, compromisso e a ligação humana que supostamente tínhamos.

Acontece com a nossa equipa, quando para ela olhamos como um dado adquirido e cuja existência acontece como forma de nos servir, a toda e qualquer hora. Acontece com família ou amigos, quando deixamos a amizade e a conexão caírem como grãos de areia no punho de uma mão, e deixamos as conversas e os encontros para quando tivermos tempo ou para quando anos mais tarde nos reencontrarmos todos num qualquer funeral e aí recordemos os bons velhos tempos e a falta que agora nos fazem.

Acontece com a pessoa que amamos, e da qual nos apaixonámos anos atrás e hoje a rotina do dia-a-dia impele-nos a perder a intensidade e paixão de outrora.

O que é isso da rotina e da falta de tempo senão um mortífero dado adquirido?

O dado adquirido. Um dos fatores mais escondidos e mais visíveis do nosso comportamento diário. Revoltemo-nos então. Sim, revoltemo-nos. 

Jamais saberás se voltarás a ver os teus filhos quando à noite, se esta existir, se reencontrarem em casa, para depressa ires para o computador e eles irem fazer os trabalhos de casa antes de jantar para se deitarem a horas. Revoltemo-nos então. Eles não são um dado adquirido. Agarra-te aos teus filhos e despede-te todos os dias deles como se fosse a última vez que os visses. Abraça-os. Beija-os. Diz-lhes o quão importantes são e o legado que precisam de deixar ao mundo.

Jamais saberás se o emprego que outrora gostavas e te dava conforto, dinheiro e a oportunidade de aprenderes, continuará lá amanhã. Revoltemo-nos então. O teu emprego não é um dado adquirido. Dá o teu melhor no teu dia e não te contentes com menos. Se fores despedido, saberás que conseguirás ser tão ou mais exigente do que foste e com isso estarás mais e melhor preparado para outro qualquer emprego. Injustiça por não te reconhecerem? Não precisas disso. Precisas sim de te reconheceres por dares o teu melhor.

Jamais saberás se os teus clientes continuarão lá para continuarem a apoiar-te e a comprarem os teus serviços. Revoltemo-nos então. Os teus clientes não são um dado adquirido. Adiciona todos os dias valor aos teus clientes, transforma-os numa tribo, transforma-os em teus fãs. De forma genuína, de forma autêntica, com propósito em tudo aquilo que fazes. Trata aquele antigo cliente como se o acabasses de conhecer. Trata-o como se o visses pela primeira vez.

Jamais saberás se a tua equipa estará lá amanhã para te continuar a apoiar nos teus projetos e a dar corpo às tuas ideias. Revoltemo-nos então. A tua equipa não é um dado adquirido. Acarinha-os, apoia-os, descobre os seus interesses e as suas motivações pessoais antes de lhes falares sobre objetivos empresariais. Trata-os como se de uma árvore se tratassem – poda-os e aduba-os.

Jamais saberás se a família ou os amigos estarão lá no dia de amanhã quando precisares de apoio. Revoltemo-nos então. A tua família e os teus amigos não são um dado adquirido. Estima-os, nutre-os, apoia-os, suporta-os, agenda tempo de qualidade para estares regularmente com eles. Trata-os como gostavas que te tratassem – com amor.

Jamais saberás se voltarás a ver a pessoa que amas. Revoltemo-nos então. A pessoa que amas não é um dado adquirido. Surpreende-a, mima-a, está presente, olha-a nos olhos como se fosse a primeira vez, dá-lhe um abraço e beija-a como se fosse a última. Trata-a como se estivesses prestes a convidá-la para sair pela primeira vez.

O que é o dado adquirido senão a ilusão de um futuro que não existe?

Se queres transformar a tua relação, a tua família, o teu negócio, as tuas amizades e a tua vida, larga o dado adquirido e começa todos os dias do ponto zero. É como se desconhecesses a pessoa que tão bem achas que conheces, entregando-te numa odisseia diária para conquistares amor, amizade, dinheiro. Para conquistares a vida.

Conquista-TE.

Desejo-te um dia inspirador

 

Mário Caetano 

Coach & Palestrante Inspirador

 

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